domingo, 30 de abril de 2017

POR FIM, BASTA JAMAIS SABER - uma homenagem a Antonioni e Monica Vitti (Edu Reginato)



Talvez não seja inaptidão, acho melhor dizer preguiça de escrever algo sobre A Trilogia da Incomunicabilidade (A Aventura, A Noite e O Eclipse) ou Deserto Vermelho, filmes dirigidos por Michelangelo Antonioni. Tantos bons já escreveram sobre isso. Gosto do que já li e me basta para não me fazer escrever.
Fiz apenas um apontamento no meu sketchbook (presente da querida Marina Pessanha): O tempo está em delay em Antonioni.
Foi um apontamento corrido, sem óculos, no escuro da escadaria lateral do CCBB. Foi um átimo, sem pensar, sem pesar se realmente há um tempo em Antonioni porque Antonioni talvez seja mais espaço do que tempo. Mas, talvez tempo que eu diga não sejam horas, passagens, sim um tempo dimensional, esquadrinhado, hermético, geométrico e orgânico. Tudo é talvez nisso que escrevo porque nada sei, não sei tanto quanto Vittoria – personagem de Monica Vitti em O Eclipse –, o que tento sentir que sei é que esse tempo dimensional se mistura com o espaço nos filmes de Antonioni, nisso há um descolamento de uma situação da realidade assim proposta, uma capsula onde as personagens principais sempre estarão num ritmo destoante da realidade, capturadas pela gelatinosa e amniótica sensação de despreparo, angústia, deslocamento, desproporção, tédio diante, entre e com si, ambos, todos e tudo.
Por fim paro aqui, sorvo mais um gole de uma mistura de vodka finlandesa com Mineirinho (triste, né? Não soa charmoso, mas é o que tenho no momento) e escrevo de outra forma, nunca a certa porque nada sei:

Queria não te amar
Ou te amar melhor
Não sei
Não sei por que abro as cortinas
Para ver um imenso cogumelo de concreto
Não sei porque parei de te amar
Se era tão conveniente te amar
E te compreendia enquanto te amava
Não sei...
Se teu beijo tem gosto de vidro
Pois te beijo entre vidraças
Não sei o que há além do seu braço
Pois teu corpo está fora do plano
Não sei se a culpa é do vestido
Que se rasga
Ou do desejo reprimido
Entre teus seios que vislumbro
Na nesga de sua blusa quando caminha
Não sei
Se caminhando até ali te darei esse beijo
Ou te repudiarei como todas que você é
nos fazem.
Tanto não. Não toda vida.
Não te compreendo, mas te sei
Somos eles, todos eles
Piero, Giovanni, Sandro, Corrado
Vocês todas elas
Lidia, Valentina, Vittoria, Claudia, Giuliana
Essa noite infinita
Estamos todos sós e nós
Esse é o jogo
Um único jogo
De inúmeras fases e desafios
Que não há vencedores
Porque todos perdem
Porque todos sempre perdem
Se o jogo nunca termina
Posso sentir, mas não amar
Pois amar advém da ilógica
E lógica é tudo que nos resta
Nesses quadrantes nesses muros
Nesses tapumes, nessa geométrica
Proporção de espaço
Que metaboliza o tempo
Entre aqui ali e não adiante
Adiante é muito longe
Está no futuro e futuro
Só os industriais vislumbram.
Não há promessas de futuro no fim do filme
Pois antes do fim desapareceremos
Não haverá hoje a noite ou amanhã ou depois de amanhã
Estamos juntos, abraçados olhando em direções diferentes
Sempre sentirei sua mão na minha nuca
Enquanto desabo sem entender um desaparecimento
Nunca saberei quem escreveu a carta que fiz para você
Nunca lembrarei de memória o seu corpo enquanto dormia
Não acreditarei que a noite teve fim por que
A noite chegou desde que deixou de me amar
E de eu acreditar nas minhas palavras
Quando digo te amo
Sempre devastaremos sua noite
Sempre escutarei sua voz saindo
Do seu corpo em contra luz
Num gemido depois de destruir completamente contigo
Sempre olharei por cima de seus ombros
Tentando encontrar teus olhos
E além dos olhos teu sexo
O esfregar de suas pernas que tem som de mar
Ou de um grito no meio de um nevoeiro
Tudo não anda, nada se completa,
Tudo é vazio cheio de não preenchimento
Só nós andamos
E como andamos
Quadras, escadas, corredores
Lamaçais, charcos, cais, ilhas
No fim nos fixamos em quartos
Em caixas
Sejam preto e branco, rosas ou vermelhos
todas as cores são teu deserto
e tua parede é verde e teu teto azul
Por fim estamos em caixas
Somos caixas dentro de caixas
Caixas de carne cheias de compartimentos
Alguns chaveados guardando mistérios
Mistérios não solucionáveis
Pois a solução é só digna dos covardes
Os corajosos são segredo
E o desvelar não importa
Não importa o desaparecimento
E sim a ilha
Não importa o eclipse
Mas a órbita do sol e da lua
Não importa a noite
Mas os entes que se esgueiram por ela
Não importa a fumaça amarela
Mas os pássaros que a evitam
Não importa entender você
Te aceito como é, aceito todas vocês
Por que antes do fim dessas linhas
Desaparecemos
E nunca terei sua resposta
Nem você a minha.